quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Tenho pena que Finch Hatton não me tenha lavado os cabelos cor de burro-quando-foge

Ontem à tarde estive na aldeia onde me deram as primeiras noções de uma África colonial distante, que possivelmente, só existiria na memória dos meus jograis privados, quando me documentavam pictoricamente com fotografias a preto e branco.
Com muitos brancos e poucos pretos, muitas meninas coloniais de tocado, muita fartura de sorrisos francos e cristãos. Como diria o outro, muita lusofonia às postas cheia de boas intenções para compor o meu imaginário de criança. Molho os pés no rio Nhia, em Angola por causa de uma secção agrícola do Quitundo.
Chego a essa África, de forma ‘naif’, a ignorar uma outra versão da história.
Na altura até podia ter tido desculpa, anos mais tarde a desculpa foi-se esfarrapando até porque a história do mundo passou toda a minha frente enquanto estava demasiado preocupada com os furúnculos da adolescência.

Devia ter à volta de uns onze anos quando Karen Blixen entrou na minha vida sem pedir licença. A responsabilidade foi da progenitora que me sentou a seu lado à frente de um écran gigante, onde pela primeira vez bebi uma chávena de África tecnicolor de um só trago, onde até a tragédia parecia perfeita e nem deixava espaços para lágrimas.
Acho que foi a primeira vez na vida que vi uma cena debaixo dos lençóis e achei sublime a forma como a massa dos corpos se modela ao outro, se funde e se encharca de amor.

Acho que só ontem desfiz o mito Blixen e devo ter ficado triste, porque desde então não fui mais a mesma menina encantada com o verde que pincela o mundo. Também, já não tenho idade para esse género de deslumbramentos.
Ontem à tarde de volta aos (a)braços da progenitura carregámos no play e em VHS (como convém) de comum acordo revimos a vida de Karen Blixen (que assinava também sob o pseudónimo de Isak Dinesen) segundo Sidney Pollack.
O ser a quem vim agarrada, via cordão umbilical deu-me instruções para ler o “África Minha” da colecção do Público. Primeiro, porque não tem a ver com a versão Blixen cinematográfica, que é baseada no livro de Isak Dinesen “The Life of a Storyteller”, depois por as descrições, cheiros e cores lhe encheram as medidas, tal como a neve de domingo passado a curou das suas maleitas recentes.
Implorei-lhe para carregar no stop e saí para a rua para não me enfiar pela vigésima vez no mundo “estilo império”, da dinamarquesa Blixen, a baronesa africana.
África nem sequer é assim, e provavelmente nunca foi.
Penso que o Concerto para clarinete (K.622) de Mozart, que se ouve na grafonola oferecida por Finch Hatton, também é responsável por esta nostalgia toda que volta e meia me degola a alma só para a ver devidamente ensanguentada.
Confesso que tenho pena de não ter uma grafonola e tenho também pena que Finch Hatton não me tenha lavado os cabelos cor de burro-quando- foge, enquanto o céu adquiria contornos rosa por causa de uma nuvem de flamingos.

E, mesmo que goste de coincidências como o raio, o facto de ter descoberto que a “minha” Audrey Hepburn, a doce Elisa Doolittle, foi a primeira escolha de Pollack para protagonizar a dita senhora, nada disso me enche as medidas.

África não é minha.
Did not have a farm in Africa, e escuso de mentir sobre esse monte de pó e carne seca... salvam-se algumas polaroids que muito oportunamente me vão distraindo o cérebro perturbado de ser caçada por uma mentira em forma de leão que entra nos meus sonhos de presa na boca.

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Pois que para mim o filme ainda permanece nas sombras intocáveis da memória. A música do Barry ainda passa muitas vezes no meu leitor de CD's. E porquê? Talvez não saiba muito bem, mas há coisas que não necessitam de grandes explicações ou dissertações. Apenas se vivem. E há instantes em que África, apesar de também não ser minha, se revela pela conjugação de três simples factores: uma história, uma paisagem, uma música. Tão simples.
E se o Quénia está lá tão longe, às vezes está tão perto.

11:42 da manhã  

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