quinta-feira, janeiro 12, 2006

UNDERSCORE

“O Risco Profissional a longo prazo de fazermos espectáculo de nós próprios consiste em, a dada altura, também comprarmos o bilhete.”

Thomas McGuane Panama

A ansiedade é um daqueles flagelos completamente ignorado que atinge milhares de inocentes (talvez milhões) em toda a humanidade.
Aprendemos desde pequeninos a dissimular a ansiedade. Aos mais privilegiados, o núcleo familiar e às vezes até malfeitores começam por dar chocolate envenenado, entre outras compensações, livros, playstation, cáries dentárias, obesidade...etc.
Às meninas as mães dão roupa e gelados de vários sabores que se derretem na boca (a minha pelo menos dava), aos rapazes dão-se pressões de ar para que aliviem a raiva nos desgraçados dos passarinhos que nem sequer têm culpa dos deslizes e da idiotia dos seres humanos.
Por outro lado, é quase uma demonstração de fraqueza o dito sentimento cair-nos do colo perante as outras pessoas sejam elas amigas, inimigas, híbridos ou ratazanas. Somos desde sempre instruídos de que ansiedade é coisa para franganotes, por isso forçamo-nos a andar a ruminá-la (como bois com a boca cheia de erva) de um lado para o outro.
Então, a ansiedade acaba por ser isso mesmo, uma indigestão muito mal feita. Se calhar é por causa disso que há pessoas que sofrem com úlceras nervosas e depois têm que ir à faca para as tirar. Isto arrepia como o raio!
As pessoas andam a vida inteira a tentar aprender a ser adultas. Engolem o drama fazem um grande sorriso e vão às suas vidas.
Lavam a loiça, passam a ferro, fazem bolos, despejam cinzeiros, se tiverem cão, passeiam o cão.
De preferência devem ser tarefas que exijam esforço físico e não mental, porque o ansioso raramente consegue concentrar-se no que quer que seja. Talvez faça um “zapping” inconsciente em que carrega freneticamente no telecomando. Mas, mais do que ver as imagens fugidias que lá passam, arranja um grande calo no dedo escolhido para emitir a ordem de mudar de canal.
Pessoalmente, prefiro investir em programas alternativos a ver se me esqueço do assunto que mais lateja nas concavidades da minha pobre cabeça.
Compro livros do tarado do Bret Easton Elis cuja literatura é tão disforme, ‘junky’ e nojenta que vai ocupando os poucos neurónios que ainda consigo ter sem ocupação e pô-los em marcha, “wich is good!”
Ansiedade por ansiedade faço cálculos matemáticos com o intuito de contrabalançar aquela descompensação que me põe o nervo da pálpebra direita tremer, que nem uma neurótica a ressacar qualquer coisa forte. Muito forte. Dou grandes passeios a pé, pendurada no cachecol, como se este fosse uma liana da selva do Tarzan...
Como já disse aqui um leitor, atento, devidamente identificado: “O ócio que tantas vezes nos inspira, também pode impedir-nos de escrever”.
Talvez não seja o ócio, o que nos impede de escrever, mas a ansiedade criada, quando descobrimos que viver pesa, e não é pouco. Só o descobri esta manhã (ao meio dia) quando estava a planar sobre as nuvens a caminho de Monte Abraão. É preciso que se note que as nuvens estavam lá em cima, enquanto, eu estava à boleia do combóio suburbano. Ao vê-las em forma de cogumelo a assombrar as milhares de barracas semeadas nos arrabaldes de LX, senti uma vergonha enorme por não saber controlar as minhas ânsias comezinhas de barriguinha cheia. Fechei os olhos dei de caras com o calor e pus a tromba a jeito a apanhar sol!

ANSIEDADE: dificuldade de respiração; opressão; angústia; inquietação de espírito; desejo veemente; impaciência.