À procura do Tutano no bosque
“I went to the woods because I wished to live deliberately, to front only the essential facts of life, and see if I could not learn what it had to teach, and not, when I came to die, discover that I had not lived. I did not wish to live what was not life, living is so dear; nor did I wish to practice resignation, unless it was quite necessary.”
Henry David Thoreau (1817-1862)
A vida tal como ela é parece um labirinto.
Nele (labirinto) as observações e análises que fazemos dela (vida) são coisas incrivelmente subjectivas e parecem turvar-nos a vista. Vejo muitas vezes tudo embaciado. Não havia aquele infeliz num filme do Woody Allen que via tudo desfocado. Pois bem, padeço de uma maleita que vê tudo embaciado.
Sei que devo dar o benefício da dúvida, mas da teoria à prática ergue-se um fosso maior que o Grand Canyon.
Conseguirei voltar a fazê-lo?
Fecho os olhos.
Saco da cartola um dos meus estados de espírito corro pela estrada fora. Nela, tropeço nas caras do mundo, e noutras que não são deste.
Será correcto que cada vez que tropeço e caio por causa de um obstáculo invisível afogo-me duplamente com um limo castanho gigante pendurado ao pescoço para que a mise-en-scène seja ainda mais dramática e ‘dark’?
Nem sei se gosto desta imagem dos limos ao pescoço. Adiante.
Se quero emergir do afogamento precoce, transporto-me para outros mundos. Verdejantes, poderosos com montanhas cujos cumes parecem pepinos afilados, e onde todos são panteístas naturalmente, e, sorriem apenas porque se sentem felizes.
A memória dos seus sorrisos dá-me beijos de beija-flor e fico estranhamente feliz, porque tanto me encontro perdida no meu compartimento claustrofóbico que se assemelha ao labirinto do Minotauro, como VOU em voo rasgado na garupa do mundo inteiro. E se estiver muito concentrada, consigo mesmo sentir-me parte integrante de todos os bichinhos da terra, como já senti uma vez.
Para evitar olhar de frente para o sol, fecho os olhos e procuro a natureza no seu estado mais puro e imaculado. Socorro-me para isso de vestígios de musgo que terão ficado pegados ao corpo que carrego.
O musgo e a seiva que rumino tal e qual os herbívoros, trazem de bandeja os cânticos das Beneditinas do Adriático, o barulho que sai das suas bocas é uma das faixas da banda sonora de hoje. Mental e de sorrisos. Sempre que folheio esta colecção de sorrisos paro naqueles desdentados e pretos das velhas vendedoras de tabaco da Cu Dai Beach.
Quando vinham em bando, ao longe parecia que da linha do horionte saía “o grito do Munch” a triplicar. Tenho muitas vezes saudades delas e das suas bocas pretas carcomidas pelo tabaco mastigado. Ou seria ópio?
É inacreditável como a sua presença mesmo fictícia me acalma e sossega o endemoninhado.
Segue-se Elvira, uma cabo-verdiana mandada por um Deus evangélico para me proteger. De carapinha apanhada no alto da nuca ela, sorri, dentro da “YES” com um sorriso do tamanho do mundo. Fazia couscous muito bons que vendia nos hotéis de Santa Maria. Quando lhe perguntei se sabia de um sítio em Espargos para pernoitar, baratinho de preferência. Ela ofereceu-me a sua casa. Tentada aceitei. Conquistada, ela sentiu-se minha irmã, agradeci por causa das minhas carências de filha única.
O sorriso de Guida, a velha louca dos gatos da minha rua. Essa minha amiga morta desdentada que queria que lhe comprasse tangos do Carlos Gardel, mas que não tinha gira-discos. (a essa devo-lhe um dia um post de gatos e cães nas suas janelas escancaradas, pela companhia que me fez quando à varanda me contorcia de remorsos por não estar a estudar).
Reencontro o meu amigo croata de cabelo grisalho cujo sorriso lembrava o do Seinfeld, mas a sua atitude circunspecta balcânica não permitia que fossemos como compinchas de escola.
A esses e a todos os outros devo-lhes gratidão de me acompanharem como se fossem anjos vindos de Saturno. Com lanternas acesas, vigiam o limbo letárgico que as minhas pernas adquirem sempre que vêem uma ratoeira. Sentem-se impelidas para o tombo, vá-se lá saber porquê...Eles, vigilantes, aparam a minha queda no domínio do invisível. Pode ser que me (e)levem ao bosque de Thoreau para que o meu espírito possa dar de caras com os factos essenciais da vida. E não se perca demasiado tempo com coisas comezinhas.
É inacreditável como a sua presença mesmo fictícia me acalma e sossega o endemoninhado.
Segue-se Elvira, uma cabo-verdiana mandada por um Deus evangélico para me proteger. De carapinha apanhada no alto da nuca ela, sorri, dentro da “YES” com um sorriso do tamanho do mundo. Fazia couscous muito bons que vendia nos hotéis de Santa Maria. Quando lhe perguntei se sabia de um sítio em Espargos para pernoitar, baratinho de preferência. Ela ofereceu-me a sua casa. Tentada aceitei. Conquistada, ela sentiu-se minha irmã, agradeci por causa das minhas carências de filha única.
O sorriso de Guida, a velha louca dos gatos da minha rua. Essa minha amiga morta desdentada que queria que lhe comprasse tangos do Carlos Gardel, mas que não tinha gira-discos. (a essa devo-lhe um dia um post de gatos e cães nas suas janelas escancaradas, pela companhia que me fez quando à varanda me contorcia de remorsos por não estar a estudar).
Reencontro o meu amigo croata de cabelo grisalho cujo sorriso lembrava o do Seinfeld, mas a sua atitude circunspecta balcânica não permitia que fossemos como compinchas de escola.
A esses e a todos os outros devo-lhes gratidão de me acompanharem como se fossem anjos vindos de Saturno. Com lanternas acesas, vigiam o limbo letárgico que as minhas pernas adquirem sempre que vêem uma ratoeira. Sentem-se impelidas para o tombo, vá-se lá saber porquê...Eles, vigilantes, aparam a minha queda no domínio do invisível. Pode ser que me (e)levem ao bosque de Thoreau para que o meu espírito possa dar de caras com os factos essenciais da vida. E não se perca demasiado tempo com coisas comezinhas.
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