quinta-feira, fevereiro 16, 2006

“Dar de beber à dor é o melhor já dizia a Mariquinhas”

A máxima é consensual para a Mariquinhas, Amália Rodrigues, Automóvel Clube de Portugal e Liberty, uma agência de Seguros que tem o mesmo apelido da estátua da liberdade de Nova Iorque.
Os últimos membros inscritos nesta lista lançaram um apetecível serviço de “Baby sitting” para bêbados no qual propõem dar boleia, até às suas casas, a todos os ébrios que requisitarem os seus serviços. Até agora este sigiloso serviço restringe-se aos fins de semana.
Se a Liberty está neste corridinho só desde o fim de semana passado, o ACP no fim de Dezembro já teria levado a casa cerca de 2000 condutores cujo o grau de álcool no sangue não lhes permitia chegar a casa pelo próprio pé.
Esta medida lançada no âmbito de uma campanha de Prevenção Rodoviária, parece uma faca de dois gumes. Se, por um lado, os condutores estarão mais protegidos em relação às coisas práticas da vida, como ficar sem carta de condução, ou a pagar uma multa de pôr os cabelos em pé, não nos podemos esquecer que a iniciativa poderá também potenciar exageros, comas alcoólicos, cirroses hepáticas entre outros maleitas como hepatites, doenças de pele, de fígado etc.
Não sou puritana, nem abstémia. Até gosto da cor e da alegria que o álcool injecta na vida das pessoas. Gosto de cervejolas com tremoços, de um tintol a regar um belo repasto. Agora não sei até que ponto esta medida meia experimental da boleia até casa não poderá acabar numa boleia até ao hospital....
Tenho dito, não tenho medo de polémicas se quiserem façam o favor de se opor...

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Vadias conversas

"Todas as pessoas são excepções e tudo devia ser excepção, mas a normalização obriga-nos a parecer-nos todos uns com os outros."
Agostinho da Silva, à conversa com Adelino Gomes in"Conversas vadias", 1990
Vou fazer jus às declarações do saudoso Agostinho da Silva, quando afirmou pelo princípio da Madrugada de segunda-feira que "todos os homens nascem poetas".
Na última segunda feira fez cem anos que Agostinho da Silva nasceu. Como não poderia deixar de ser, poeta.
Um poeta que mesmo depois de morto, continua actual, vivo nas palavras, controverso e enigmático. Nos últimos dias ele tem aparecido no canal A dois, qual Dom Sebastião sem manhã de nevoeiro, a provocar o mundo economicista em que estamos encurralados, à mercê de lobbies e interesses topo de gama.
Dessa meia hora de conversa vadia com Maria Elisa Domingues registei no meu disco rígido errante aquilo que mais me tocou: que o homem não nasce para trabalhar, mas sim para ser poeta. Que a vadiagem é uma forma de poesia (gostei particularmente deste aparte)
Há 16 anos atrás, Agostinho da Silva culpava a competição imposta pela sociedade do insucesso escolar: "a culpa não é dos alunos, mas sim das imposições de uma sociedade competitiva, que nos leva a considerar o trabalho como uma obrigação e não como uma ocupação de nosso gosto."
As celebrações do centenário do nascimento do controverso filósofo arrancaram ontem no CCB, sob a "benção" de Isabel Pires de Lima. E com elas poderemos ver, ao longo do ano, uma série de iniciativas que comemoram o centenário do filósofo
Exposições, colóquios, publicação de livros, a edição de um selo comemorativo, a abertura da cátedra "Agostinho da Silva" na Universidade de Brasília e o baptismo de um avião da TAP com o seu nome são algumas das formas de recordá-lo.
Esta parceria entre os governos português e brasileiro (o pensador exilou-se no Brasil durante o Estado Novo) que conta com a participação da Associação com o seu nome inclui iniciativas como a projecção do documentário "Agostinho da Silva: Um Pensamento Vivo" e a inauguração da exposição "Agostinho da Silva: Pensamento e Acção", cá entre nós e também por outras paragens.
Segundo Paulo Borges, presidente da Associação Agostinho da Silva, estamos diante de um "Espírito livre, inconformista e original em todos os domínios", que "colocou as ideias e a vida ao serviço do pleno cumprimento de todas as possibilidades humanas. Em conformidade, e na linha de Luís de Camões, Padre António Vieira, Fernando Pessoa e Jaime Cortesão, intuiu a superior vocação da cultura portuguesa, brasileira e lusófona como a de oferecer ao mundo o seu espírito fraterno e universalista, contribuindo para a criação de uma comunidade ético-espiritual mundial onde se transcendam e harmonizem as diferenças nacionais, culturais, políticas e religiosas. Inspirador da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), antecipou a urgência da ética animal, bem como da consciência ecológica e ecuménica, propondo um verdadeiro diálogo inter e trans-cultural, inter e trans-religioso, entre o Norte e o Sul, o Ocidente e o Oriente, como forma de superar preconceitos e antinomias que sempre resultam em desarmonia, opressão e guerra."
Como membro desse grupo a que ele chamou "pobres garotos abandonados" cujo bicho papão era a mal fadada PGA hei-de alimentar-me das suas vadias conversas que são sim senhor serviço público e estão a passar na RTP, tarde e a más horas. Não nos deitamos tarde por causa de um copo com um amigo?
porque não haveremos de nos deitar às duas da manhã para ouvir o verdadeiro professor?
É que já diziam na missa da minha aldeia, nem só de pão vive o homem.
PS:
para quem perder este round e estiver bem de massas (não é propriamente o meu caso) poderá sempre adquirir os DVDs com as "Conversas Vadias". Um investimento em termos de libertação da alma das carneiradas idiotas que a vida nos obriga a aturar.

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

À procura do Tutano no bosque


“I went to the woods because I wished to live deliberately, to front only the essential facts of life, and see if I could not learn what it had to teach, and not, when I came to die, discover that I had not lived. I did not wish to live what was not life, living is so dear; nor did I wish to practice resignation, unless it was quite necessary.”

Henry David Thoreau (1817-1862)



A vida tal como ela é parece um labirinto.

Nele (labirinto) as observações e análises que fazemos dela (vida) são coisas incrivelmente subjectivas e parecem turvar-nos a vista. Vejo muitas vezes tudo embaciado. Não havia aquele infeliz num filme do Woody Allen que via tudo desfocado. Pois bem, padeço de uma maleita que vê tudo embaciado.
Sei que devo dar o benefício da dúvida, mas da teoria à prática ergue-se um fosso maior que o Grand Canyon.

Conseguirei voltar a fazê-lo?
Fecho os olhos.
Saco da cartola um dos meus estados de espírito corro pela estrada fora. Nela, tropeço nas caras do mundo, e noutras que não são deste.
Será correcto que cada vez que tropeço e caio por causa de um obstáculo invisível afogo-me duplamente com um limo castanho gigante pendurado ao pescoço para que a mise-en-scène seja ainda mais dramática e ‘dark’?
Nem sei se gosto desta imagem dos limos ao pescoço. Adiante.
Se quero emergir do afogamento precoce, transporto-me para outros mundos. Verdejantes, poderosos com montanhas cujos cumes parecem pepinos afilados, e onde todos são panteístas naturalmente, e, sorriem apenas porque se sentem felizes.
A memória dos seus sorrisos dá-me beijos de beija-flor e fico estranhamente feliz, porque tanto me encontro perdida no meu compartimento claustrofóbico que se assemelha ao labirinto do Minotauro, como VOU em voo rasgado na garupa do mundo inteiro. E se estiver muito concentrada, consigo mesmo sentir-me parte integrante de todos os bichinhos da terra, como já senti uma vez.
Para evitar olhar de frente para o sol, fecho os olhos e procuro a natureza no seu estado mais puro e imaculado. Socorro-me para isso de vestígios de musgo que terão ficado pegados ao corpo que carrego.
O musgo e a seiva que rumino tal e qual os herbívoros, trazem de bandeja os cânticos das Beneditinas do Adriático, o barulho que sai das suas bocas é uma das faixas da banda sonora de hoje. Mental e de sorrisos. Sempre que folheio esta colecção de sorrisos paro naqueles desdentados e pretos das velhas vendedoras de tabaco da Cu Dai Beach.
Quando vinham em bando, ao longe parecia que da linha do horionte saía “o grito do Munch” a triplicar. Tenho muitas vezes saudades delas e das suas bocas pretas carcomidas pelo tabaco mastigado. Ou seria ópio?
É inacreditável como a sua presença mesmo fictícia me acalma e sossega o endemoninhado.
Segue-se Elvira, uma cabo-verdiana mandada por um Deus evangélico para me proteger. De carapinha apanhada no alto da nuca ela, sorri, dentro da “YES” com um sorriso do tamanho do mundo. Fazia couscous muito bons que vendia nos hotéis de Santa Maria. Quando lhe perguntei se sabia de um sítio em Espargos para pernoitar, baratinho de preferência. Ela ofereceu-me a sua casa. Tentada aceitei. Conquistada, ela sentiu-se minha irmã, agradeci por causa das minhas carências de filha única.
O sorriso de Guida, a velha louca dos gatos da minha rua. Essa minha amiga morta desdentada que queria que lhe comprasse tangos do Carlos Gardel, mas que não tinha gira-discos. (a essa devo-lhe um dia um post de gatos e cães nas suas janelas escancaradas, pela companhia que me fez quando à varanda me contorcia de remorsos por não estar a estudar).
Reencontro o meu amigo croata de cabelo grisalho cujo sorriso lembrava o do Seinfeld, mas a sua atitude circunspecta balcânica não permitia que fossemos como compinchas de escola.
A esses e a todos os outros devo-lhes gratidão de me acompanharem como se fossem anjos vindos de Saturno. Com lanternas acesas, vigiam o limbo letárgico que as minhas pernas adquirem sempre que vêem uma ratoeira. Sentem-se impelidas para o tombo, vá-se lá saber porquê...Eles, vigilantes, aparam a minha queda no domínio do invisível. Pode ser que me (e)levem ao bosque de Thoreau para que o meu espírito possa dar de caras com os factos essenciais da vida. E não se perca demasiado tempo com coisas comezinhas.

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Meia até ao joelho = Charlie Brown de saias

Não preciso que ninguém me diga, que ando com ressacas diárias de infância.
E como ando a pé, mas não descalça...
Passados vinte e muitos anos, a causa deste flashback deve ter a ver com a noção de tempo.
É que quando vivia a paredes meias com o Amédio e o Marco da sua "querida mamã", o tempo esticava e sentia literalmente as palavras daquele novo 'hit' - Abba - da Madonna, "time goes by, so slowly", parecia que nunca mais crescia, nem em tamanho, nem em intelecto.
Agora que vejo o resultado, podia ter passado ainda mais devagarinho a ver se a coisa ficava mais compostinha.

Nesse tempo, remoto, em que não era velha como os trapos e em matéria de letras conhecia apenas as da Cartilha Maternal João de Deus, dava para ficar horas a fio sentada no muro do Jardim Escola a matutar sobre a vida.
A maior dor de cabeça que me assolava o espírito, devia ser a obrigatoriedade de ter que frequentar aquele espaço fechado, com grades de jaula de circo.
Sempre sofri dessa claustrofobia de me sentir um macaquinho dentro da gaiola a fazer caretas, isto até tem uma explicação razoável, o facto de ter sido até à idade adulta rato de campo .

Agora interrogo-me se a minha cabecinha de vento daria para tanto, mas como não faço tenções de continuar a destruir-me, ignoro se estão ou não a ouvir-me.

(como se ninguém ouvisse, ou todos ouvissem)

Há sempre aquela possibilidade democrática de desligar o interruptor.

Como se eu fosse a professora do Charlie Brown a fazer “boc, boc, boc, boc”

Sempre me interroguei que raio seria aquilo?

Agora mais crescidinha até penso que percebo e avanço pelo mar a dentro estilo bruços:

Posso inclusivamente estar a ser “boc, boc ,boc,” mas se não fizer grandes compromissos científicos, crio aquilo que me apetecer e faço-o da forma que quiser, desde que não desate por aí aos tiros, aos murros, aos impropérios contra a humanidade.

Posso esvaziar o balão, reter-me em balões, soprar para dentro de mundos bolha e saltitar literariamente dentro deles como se fosse um Zé sempre em pé (sem quaisquer conotações fálicas).

Se, por acaso, a professora do Charlie Brown fizer sentido para uma legião fluorescente de psicopatas amadores, então o dia está ganho e aquele hiato de vida adquiriu contornos de “and the oscar goes to...”
Só que a professora do Charlie era lixada, pelo menos o rapaz tinha olheiras cujas ramificações lhe entravam cérebro a dentro. Sem Snoopy, ou Woodstock que me valesse acho que fui um Charliezito de saias. Kilts e xadrezes com fartura, sem esquecer a meizita pelo joelho. Imaginem a figurinha...

Por isso, agora, depois da neurastenia infantil solidária para com Charlie, rei deposto dos Peanuts, tenho direitos vários:

de autor,

de não filtrar,

de inventar

e

de rir-me às gargalhadas.

Para gozar o prato com acompanhamentos vários: metáforas, anacronismos e eufemismos à parva.

Neste caso específico não faço como Luís Fernando Veríssimo que faz humor para os outros mas não se ri das suas próprias piadas. Eu, ao contrário, gosto de me rir. Ou de rir-me. E rir-me...

É tão patética a minha cacofonia de velha em estado menopausico precoce. A repetir-me toda.

Havia um senhor amigo do meu cão, que também se repetia todo.

Dizia: “Ah! Estou muito cansado, muito cansado, muito cansado”, ou então “acha que o seu cãozinho quer mais um pãozinho com fiambre? E a menina, a menina come mais um pãozinho com fiambre? Não come? Só mais um pãozinho com fiambre. Quer com muita ou pouca manteiga?

Só me apetecia gritar-lhe: cale-se seu velho decrépito. Não me arrelie. Não vê que tanto eu como o cão, estamos uns balofos, e queremos fazer dieta. Qual é a sua ideia de nos por um osso à frente do focinho?

Escrevo, escrevo até que a voz me doa.

A mi me encanta hablar español com los muñecos, com los balones con regalos.

Há dez anos atrás quando tinha carta de condução, mas ainda não guiava (porque tinha medo de não ser suficientemente sã da cabeça para enfiar-me dentro de carros) e andava à pendura no carro da progenitora, não havia vez em que ela não imitasse o macaco das máquinas de regalitos.

(porque queria que lhe desse conversa, que falássemos sobre a mesma vida sobre a qual matutava no Jardim Escola)

Ela desviava os olhos verdes dos óculos e do caminho e olhava com ternura para a cria e dizia-me:

"Habla comigo!"

respondia-lhe, o retorno do macaco:

"Tengo una sorpresa para ti, como te llamas?"

Falámos, de seguida, sobre a vida e a boca da minha mãe (de)formava a cabeça de criança em estado de arranque para a idade adulta. Com cores e sabores, bailes, assaltos de carnaval, caçadas, livros, peças de teatro, desgostos, de pessoas queridas, vivas, mortas e desaparecidas.

Devo confessar que também a Condessa de Ségur fez parte da minha (de)formação sociológica. Hesitei sempre em “palavras, actos e omissões”, entre “Um Bom Diabrete”, “Os Desastres de Sofia” e “Gisela, a menina má”. Apesar de não ter derretido bonecas, nem nunca me ter atrevido a pôr o diabo no rabo para assustar uma tia velha, para lá caminhei no mesmo género de invenções pouco ortodoxas.

Talvez continue a sonhar com estes universos e não tenha coragem para acordar, o que nesta altura do campeonato, não abona mesmo nada ao meu favor.

Tenho mesmo muita vergonha de ter dito à minha priminha de cinco anos que o diabo era o contrário de Jesus. Será que encetei assim as minhas lições de (de)formação?
é que o olhar da miúda bamboleia e seduz. Desde que Não entre em registo Charlie Brown, Amen, que já se faz tarde...

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

in Memoriam dos cadernos de Anotar a vida

Vou tentar ser rápida. Sei que quase ninguém lê testamentos, a não ser que sejam realmente testamentos em que os mortos deixam muitos bens, muitas roullotes na Costa da Caparica.
Finjo que esta é uma incursão tímida, como se não tivesse um bicho que me corroi por dentro e volta e meia dá um ar da sua graça.
Como se tudo isto não fosse uma enventualidade desgraçada.
Os cadernos tornam-se cada vez mais cadernos. Escondo-me deles como se tivesse secado a fonte intimista das queixinhas que faço aqueles com nuvens e corações da Agatha Ruiz de La Prada e ultimamente a fingir que sou adulta ao Moleskine que deu muita “merda” a nomes sonantes da literatura como Chatwin e Hemingway.
Sinto-me outra, tão outra que estava quase capaz de me aventurar na poesia ‘non sense’.
Nela estendo fraldas à varanda e acho o acto parte integrante da poesia da vida. Envidraçada
Fónix, lá se foi de novo a timidez... e no meu caderninho onde vou vomitando umas notas sobre a vida, quebro com os arranjos gráficos da página.
Esta perda de tempo deixa-me doente....faço figas para que este não me escorra pelos dedos.
Às vezes, penso que poderia ganhar algum se investisse na literatura do sexo. Não teria coragem, sou muito pudica fora das quatro paredes que albergam as camas em que durmo. Saberia descrever as posições, os cheiros, os afectos?
Nem sequer consigo acabar os raciocínios. Como uma vez alguém observou muito bem, tenho a péssima mania de dar saltos lógicos nas conversas e deixar todos boquiabertos, não pela eloquência do que me sai boca fora, mas por terem princípio e não terem nem meio, nem fim.
Gosto da liberdade de escrever à mão. É um acto íntimo sem leitores ansiosos à espera, com as confissões de alcova que isso possa acarretar. Não tenho medo, nos meus caderninhos cheios de bonecos disformes, palavras riscadas e nódoas de vinho.
Agora em pleno campo de batalha lembro aquela frase do tempo do Jardim Escola: “quem vai à guerra dá e leva”. Em setenta e tal a guerra para mim era a padeira bigodaça de Aljubarrota com uma pá a dar coças monumentais nos desgraçados dos castelhanos. O meu avô contava, eu como criança crédula acreditava piamente.
Sabe-me bem esta merda de escrever sem compromissos.
Fónix...estava entalada, enlatada. Agora já não, porque confesso as entranhas nas catárticas tardes de epístolas de trazer por casa.
De repente, já raivosinha ignoro os tons linguísticos e as vossas regras literárias. Fónix para a literatura. Mas escuso de me por aqui com palavrões velados, porque até saltei do caderninho e ninguém tem que aturar as minhas malcriações.

Até porque os cadernos que me acompanharam a vida inteira já não são o suficiente. Parecem diários doentes da triste viuvinha. Já não me fico só pelos cadernos onde minto que ando no rasto de coisas importantes, quando não ando no rasto de coisa nenhuma.
Ou então enveredo pela verdade. Que escrevo para me purificar, para não discutir com as pessoas, para não morrer de tédio. E, que me estou completamente nas tintas para que o que digo não valha absolutamente nada.
Este período anterior é uma mentira vergonhosa, mas com aspirações literárias. Então finjo que sou muito, muito boazinha e ofereço-me para ajudar o mundo a descodificar o Incrível Hulk. Parece bruxedo toca no rádio o "Changes" do Bowie. Deus afinal não anda nada a dormir.

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Tenho pena que Finch Hatton não me tenha lavado os cabelos cor de burro-quando-foge

Ontem à tarde estive na aldeia onde me deram as primeiras noções de uma África colonial distante, que possivelmente, só existiria na memória dos meus jograis privados, quando me documentavam pictoricamente com fotografias a preto e branco.
Com muitos brancos e poucos pretos, muitas meninas coloniais de tocado, muita fartura de sorrisos francos e cristãos. Como diria o outro, muita lusofonia às postas cheia de boas intenções para compor o meu imaginário de criança. Molho os pés no rio Nhia, em Angola por causa de uma secção agrícola do Quitundo.
Chego a essa África, de forma ‘naif’, a ignorar uma outra versão da história.
Na altura até podia ter tido desculpa, anos mais tarde a desculpa foi-se esfarrapando até porque a história do mundo passou toda a minha frente enquanto estava demasiado preocupada com os furúnculos da adolescência.

Devia ter à volta de uns onze anos quando Karen Blixen entrou na minha vida sem pedir licença. A responsabilidade foi da progenitora que me sentou a seu lado à frente de um écran gigante, onde pela primeira vez bebi uma chávena de África tecnicolor de um só trago, onde até a tragédia parecia perfeita e nem deixava espaços para lágrimas.
Acho que foi a primeira vez na vida que vi uma cena debaixo dos lençóis e achei sublime a forma como a massa dos corpos se modela ao outro, se funde e se encharca de amor.

Acho que só ontem desfiz o mito Blixen e devo ter ficado triste, porque desde então não fui mais a mesma menina encantada com o verde que pincela o mundo. Também, já não tenho idade para esse género de deslumbramentos.
Ontem à tarde de volta aos (a)braços da progenitura carregámos no play e em VHS (como convém) de comum acordo revimos a vida de Karen Blixen (que assinava também sob o pseudónimo de Isak Dinesen) segundo Sidney Pollack.
O ser a quem vim agarrada, via cordão umbilical deu-me instruções para ler o “África Minha” da colecção do Público. Primeiro, porque não tem a ver com a versão Blixen cinematográfica, que é baseada no livro de Isak Dinesen “The Life of a Storyteller”, depois por as descrições, cheiros e cores lhe encheram as medidas, tal como a neve de domingo passado a curou das suas maleitas recentes.
Implorei-lhe para carregar no stop e saí para a rua para não me enfiar pela vigésima vez no mundo “estilo império”, da dinamarquesa Blixen, a baronesa africana.
África nem sequer é assim, e provavelmente nunca foi.
Penso que o Concerto para clarinete (K.622) de Mozart, que se ouve na grafonola oferecida por Finch Hatton, também é responsável por esta nostalgia toda que volta e meia me degola a alma só para a ver devidamente ensanguentada.
Confesso que tenho pena de não ter uma grafonola e tenho também pena que Finch Hatton não me tenha lavado os cabelos cor de burro-quando- foge, enquanto o céu adquiria contornos rosa por causa de uma nuvem de flamingos.

E, mesmo que goste de coincidências como o raio, o facto de ter descoberto que a “minha” Audrey Hepburn, a doce Elisa Doolittle, foi a primeira escolha de Pollack para protagonizar a dita senhora, nada disso me enche as medidas.

África não é minha.
Did not have a farm in Africa, e escuso de mentir sobre esse monte de pó e carne seca... salvam-se algumas polaroids que muito oportunamente me vão distraindo o cérebro perturbado de ser caçada por uma mentira em forma de leão que entra nos meus sonhos de presa na boca.