Não preciso que ninguém me diga, que ando com ressacas diárias de infância.
E como ando a pé, mas não descalça...
Passados vinte e muitos anos, a causa deste flashback deve ter a ver com a noção de tempo.
É que quando vivia a paredes meias com o Amédio e o Marco da sua "querida mamã", o tempo esticava e sentia literalmente as palavras daquele novo 'hit' - Abba - da Madonna, "time goes by, so slowly", parecia que nunca mais crescia, nem em tamanho, nem em intelecto.
Agora que vejo o resultado, podia ter passado ainda mais devagarinho a ver se a coisa ficava mais compostinha.
Nesse tempo, remoto, em que não era velha como os trapos e em matéria de letras conhecia apenas as da Cartilha Maternal João de Deus, dava para ficar horas a fio sentada no muro do Jardim Escola a matutar sobre a vida.
A maior dor de cabeça que me assolava o espírito, devia ser a obrigatoriedade de ter que frequentar aquele espaço fechado, com grades de jaula de circo.
Sempre sofri dessa claustrofobia de me sentir um macaquinho dentro da gaiola a fazer caretas, isto até tem uma explicação razoável, o facto de ter sido até à idade adulta rato de campo .
Agora interrogo-me se a minha cabecinha de vento daria para tanto, mas como não faço tenções de continuar a destruir-me, ignoro se estão ou não a ouvir-me.
(como se ninguém ouvisse, ou todos ouvissem)
Há sempre aquela possibilidade democrática de desligar o interruptor.
Como se eu fosse a professora do Charlie Brown a fazer “boc, boc, boc, boc”
Sempre me interroguei que raio seria aquilo?
Agora mais crescidinha até penso que percebo e avanço pelo mar a dentro estilo bruços:
Posso inclusivamente estar a ser “boc, boc ,boc,” mas se não fizer grandes compromissos científicos, crio aquilo que me apetecer e faço-o da forma que quiser, desde que não desate por aí aos tiros, aos murros, aos impropérios contra a humanidade.
Posso esvaziar o balão, reter-me em balões, soprar para dentro de mundos bolha e saltitar literariamente dentro deles como se fosse um Zé sempre em pé (sem quaisquer conotações fálicas).
Se, por acaso, a professora do Charlie Brown fizer sentido para uma legião fluorescente de psicopatas amadores, então o dia está ganho e aquele hiato de vida adquiriu contornos de “and the oscar goes to...”
Só que a professora do Charlie era lixada, pelo menos o rapaz tinha olheiras cujas ramificações lhe entravam cérebro a dentro. Sem Snoopy, ou Woodstock que me valesse acho que fui um Charliezito de saias. Kilts e xadrezes com fartura, sem esquecer a meizita pelo joelho. Imaginem a figurinha...
Por isso, agora, depois da neurastenia infantil solidária para com Charlie, rei deposto dos Peanuts, tenho direitos vários:
de autor,
de não filtrar,
de inventar
e
de rir-me às gargalhadas.
Para gozar o prato com acompanhamentos vários: metáforas, anacronismos e eufemismos à parva.
Neste caso específico não faço como Luís Fernando Veríssimo que faz humor para os outros mas não se ri das suas próprias piadas. Eu, ao contrário, gosto de me rir. Ou de rir-me. E rir-me...
É tão patética a minha cacofonia de velha em estado menopausico precoce. A repetir-me toda.
Havia um senhor amigo do meu cão, que também se repetia todo.
Dizia: “Ah! Estou muito cansado, muito cansado, muito cansado”, ou então “acha que o seu cãozinho quer mais um pãozinho com fiambre? E a menina, a menina come mais um pãozinho com fiambre? Não come? Só mais um pãozinho com fiambre. Quer com muita ou pouca manteiga?
Só me apetecia gritar-lhe: cale-se seu velho decrépito. Não me arrelie. Não vê que tanto eu como o cão, estamos uns balofos, e queremos fazer dieta. Qual é a sua ideia de nos por um osso à frente do focinho?
Escrevo, escrevo até que a voz me doa.
A mi me encanta hablar español com los muñecos, com los balones con regalos.
Há dez anos atrás quando tinha carta de condução, mas ainda não guiava (porque tinha medo de não ser suficientemente sã da cabeça para enfiar-me dentro de carros) e andava à pendura no carro da progenitora, não havia vez em que ela não imitasse o macaco das máquinas de regalitos.
(porque queria que lhe desse conversa, que falássemos sobre a mesma vida sobre a qual matutava no Jardim Escola)
Ela desviava os olhos verdes dos óculos e do caminho e olhava com ternura para a cria e dizia-me:
"Habla comigo!"
respondia-lhe, o retorno do macaco:
"Tengo una sorpresa para ti, como te llamas?"
Falámos, de seguida, sobre a vida e a boca da minha mãe (de)formava a cabeça de criança em estado de arranque para a idade adulta. Com cores e sabores, bailes, assaltos de carnaval, caçadas, livros, peças de teatro, desgostos, de pessoas queridas, vivas, mortas e desaparecidas.
Devo confessar que também a Condessa de Ségur fez parte da minha (de)formação sociológica. Hesitei sempre em “palavras, actos e omissões”, entre “Um Bom Diabrete”, “Os Desastres de Sofia” e “Gisela, a menina má”. Apesar de não ter derretido bonecas, nem nunca me ter atrevido a pôr o diabo no rabo para assustar uma tia velha, para lá caminhei no mesmo género de invenções pouco ortodoxas.
Talvez continue a sonhar com estes universos e não tenha coragem para acordar, o que nesta altura do campeonato, não abona mesmo nada ao meu favor.
Tenho mesmo muita vergonha de ter dito à minha priminha de cinco anos que o diabo era o contrário de Jesus. Será que encetei assim as minhas lições de (de)formação?
é que o olhar da miúda bamboleia e seduz. Desde que Não entre em registo Charlie Brown, Amen, que já se faz tarde...