Elogio ao Chumbo
Há exactamente um ano candidatei-me ao Curso de Documentário da Gulbenkian, orientado pela equipa dos Ateliers Varan. Quando recebi a carta da Catarina Vaz Pinto a dizer-me educadamente que não tinha passado à fase seguinte, senti um nó no coração daqueles que nos retraçam a alma. Volvido um ano e só com uma cicatriz, ao de leve, decidi publicar o texto chumbado. Porque gosto dele e também porque é no documentário que quero trabalhar. Foi por causa deste que se segue tão simples e tropical que começou o meu sonho da imagem em movimento.
Há um par de anos vi um documentário cujo tema era, a poesia de Carlos Drummond de Andrade. Não sei bem se ao lado de poesia estaria a palavra erótica a adjectivá-la. Parece-me que sim, por causa do resto da história que ficou escamoteada pela minha memória de cabecinha de vento.
Se os poemas de Drummond de Andrade estão impressos nas antologias poéticas da especialidade para que todos os que queiram absorvê-los, a vivência daquela gente que desfila ao longo do documentário só a ele lhe pertence. Com uma simplicidade e sensibilidade atroz, o realizador pega numa série de pessoas (velhos e novos) e pede-lhes para escolherem e lerem um dos poemas deste poeta brasileiro. Estes podem ter braços, pernas, coxas, sexo, entre outras palavras que só se dizem debaixo dos lençóis.
Lido pelos seus conterrâneos, entre sorrisos envergonhados, o poema torna-se uma porta para que se levante o pano da intimidade de cada um. Além de estarmos a usufruir do mundo mais secreto que assiste qualquer ser humano, temos acesso a uma, ou outra divisão da casa. Seja quarto ou sala, o espaço filmado, dá-nos de imediato mais uma camada da intimidade do(a) leitor(a), pela cor de ferrugem que pode ter uma parede, pelo retrato antigo que lá está pendurado meio de esguelha, pela árvore da borracha dentro de um vaso a um canto. É incrível como cada pessoa condiz com o ninho.
A solteira, a casada, a viúva, a filha da viúva que nunca casou. Mulheres de cabelos brancos, pretos, pintados a ver-se a raiz com a cor original; Homens sem cabelo, com capachinho, com cabelo, pintado, louro, branco, preto. Homens e mulheres de todas as cores, diversos como o Brasil, “branco preto, mulato” de Vinícius de Moraes.
Enquanto o nosso olhar revolve os desenhos do reposteiro de crochet e consome-se por não poder abrir de enfiada as três gavetas da cómoda, que se ergue por detrás da poltrona que senta o “trovador” de serviço, este projecta voz que pode ser trémula, grave ou de contralto e lê o poema. Alto.
De seguida, talvez incentivado pelas palavras despudoradas do poeta, desenrola o novelo do seu fado. Ele com a sua vestimenta domingueira vai revelando como e quando aconteceu aquela que foi a sua dança do acasalamento. Com mais, ou menos condimentos: sal e pimenta da Índia.
Há a que foi roubada a meio da noite pelo seu mulato porque a família era contra o namoro, o outro que ficou 50 anos impressionado com uma garota que viu na rua aos 20 e nunca casou. Os fantasmas amados que a morte já ceifou, os que ficaram cá para contar e para lerem a sua estrofe. A virgindade, a ansiedade, as expectativas, as desilusões, as traições, o vinho, o mau vinho, a submissão de quase todas as mulheres, o que calaram a vida inteira é oferecido agora de bandeja. O pobre velho a quem a mulher fugiu com um ‘camelot’.
Como a memória falha, escolhi para banda sonora do documentário, bossa nova feita na rua Nascimento Silva 107. António Carlos Jobim, João Gilberto e Vinícius de Moraes.