terça-feira, outubro 31, 2006

Elogio ao Chumbo



Há exactamente um ano candidatei-me ao Curso de Documentário da Gulbenkian, orientado pela equipa dos Ateliers Varan. Quando recebi a carta da Catarina Vaz Pinto a dizer-me educadamente que não tinha passado à fase seguinte, senti um nó no coração daqueles que nos retraçam a alma. Volvido um ano e só com uma cicatriz, ao de leve, decidi publicar o texto chumbado. Porque gosto dele e também porque é no documentário que quero trabalhar. Foi por causa deste que se segue tão simples e tropical que começou o meu sonho da imagem em movimento.

Há um par de anos vi um documentário cujo tema era, a poesia de Carlos Drummond de Andrade. Não sei bem se ao lado de poesia estaria a palavra erótica a adjectivá-la. Parece-me que sim, por causa do resto da história que ficou escamoteada pela minha memória de cabecinha de vento.
Se os poemas de Drummond de Andrade estão impressos nas antologias poéticas da especialidade para que todos os que queiram absorvê-los, a vivência daquela gente que desfila ao longo do documentário só a ele lhe pertence. Com uma simplicidade e sensibilidade atroz, o realizador pega numa série de pessoas (velhos e novos) e pede-lhes para escolherem e lerem um dos poemas deste poeta brasileiro. Estes podem ter braços, pernas, coxas, sexo, entre outras palavras que só se dizem debaixo dos lençóis.
Lido pelos seus conterrâneos, entre sorrisos envergonhados, o poema torna-se uma porta para que se levante o pano da intimidade de cada um. Além de estarmos a usufruir do mundo mais secreto que assiste qualquer ser humano, temos acesso a uma, ou outra divisão da casa. Seja quarto ou sala, o espaço filmado, dá-nos de imediato mais uma camada da intimidade do(a) leitor(a), pela cor de ferrugem que pode ter uma parede, pelo retrato antigo que lá está pendurado meio de esguelha, pela árvore da borracha dentro de um vaso a um canto. É incrível como cada pessoa condiz com o ninho.
A solteira, a casada, a viúva, a filha da viúva que nunca casou. Mulheres de cabelos brancos, pretos, pintados a ver-se a raiz com a cor original; Homens sem cabelo, com capachinho, com cabelo, pintado, louro, branco, preto. Homens e mulheres de todas as cores, diversos como o Brasil, “branco preto, mulato” de Vinícius de Moraes.
Enquanto o nosso olhar revolve os desenhos do reposteiro de crochet e consome-se por não poder abrir de enfiada as três gavetas da cómoda, que se ergue por detrás da poltrona que senta o “trovador” de serviço, este projecta voz que pode ser trémula, grave ou de contralto e lê o poema. Alto.
De seguida, talvez incentivado pelas palavras despudoradas do poeta, desenrola o novelo do seu fado. Ele com a sua vestimenta domingueira vai revelando como e quando aconteceu aquela que foi a sua dança do acasalamento. Com mais, ou menos condimentos: sal e pimenta da Índia.
Há a que foi roubada a meio da noite pelo seu mulato porque a família era contra o namoro, o outro que ficou 50 anos impressionado com uma garota que viu na rua aos 20 e nunca casou. Os fantasmas amados que a morte já ceifou, os que ficaram cá para contar e para lerem a sua estrofe. A virgindade, a ansiedade, as expectativas, as desilusões, as traições, o vinho, o mau vinho, a submissão de quase todas as mulheres, o que calaram a vida inteira é oferecido agora de bandeja. O pobre velho a quem a mulher fugiu com um ‘camelot’.
Como a memória falha, escolhi para banda sonora do documentário, bossa nova feita na rua Nascimento Silva 107. António Carlos Jobim, João Gilberto e Vinícius de Moraes.

sábado, outubro 28, 2006

Façam Poemas a/b/b/a

Afinal posso muito. Posso o que quiser. Sei que posso, mesmo que as palavras não sejam minhas e de ninguém, ponho um acento no é, e alugo as que tiver que alugar. A boca e a escrita são minhas, senhores não me venham com merdas...
São poemas que querem?
que os façam, a/b/b/a , que os analisem, que os vomitem, que os tragam no ventre nove meses, que esperem pelas luas que iluminam a noite da natureza. Não rimo, não canto, nem espanto!
E se não escrever para nada, nem para ninguém( 2ª vez que escrevo esta palavra) desabafo e tenho direito a ter um esgoto, um ralo, uma pia, para canalizar tudo aquilo que não posso criar no capitalismo. Não tenho direito a retroactivo, não me sinto activa. Não vou! E mesmo que José Régio seja previsível não vou por aí...só para encontrar um lugarzinho ao sol e agradecer muito aos patronos da vida. prefiro comer escamas de peixe, e não ficar saciada.
ai isso não fico! mas também meus amores ñ agradeço a ninguém por supuesto!

segunda-feira, outubro 23, 2006

Erotismo e jornalismo de mercearia

Humor, sadismo ou sexo puro e duro não sabia por onde devia enveredar.
Felícia a filha da merceeira da minha rua andou a VIAJAR por entre blogs onde rapazes e raparigas, (ou seriam raparigas que se fazem passar por rapazes ou rapazes que se fazem passar por raparigas?) contam desabridamente as suas vidas, ou serão só fantasias nunca praticadas?
Ao pé desses poetas da alcova, sentiu-se cobarde. E de repente quis fazer parte daquele mundo nu, em que ninguém sabe o verdadeiro nome de ninguém. Ao menos não é como aqui na puta da rua, que mal saímos do vão da porta do prédio parece que entrámos no edifício da polícia judiciária. Só que neste caso específico, cada um já tem o seu cadastro de bairro. Olhares perscrutadores despem-nos de passagem.
Neste ambiente porque não havia Felícia de abrir as pernas também?

Abastada de carnes, a mãe da Felícia é a dona desse precioso estabelecimento onde reinam as hortaliças e as couve flor. Não é muito simpática, mas parece uma autêntica agência noticiosa com as devidas equivalências. Em vez de opas e de conflitos no médio oriente, discute o preço do feijão frade, violência doméstica, divórcios, casamentos e gravidezes existentes em cada prédio deste quarteirão. A sabedoria dela dava-me um jeitão
Não admira que a filha, com os progressos da tecnologia, lhe siga as pisadas com mais nível e sobretudo com mais cibercultura. É que à força de tanta escandaleira e documentação a pobre Felícia quer ser jornalista. Tentei demovê-la, mas não quis ouvir-me, quando lhe disse que o jornalismo em suporte de papel tem mais probabilidades de extinguir-se do que a caça que existe desde a pré-história. Há inclusivamente jornalistas que gostam de caçar e se não os deixarem escrever, eles numa de retaliar vão desatar aos tiros e esquecem-se com certeza que já foram jornalistas.
De cara caída Felícia confessou-me que se isto do jornalismo não tem futuro ela hesita entre ‘pop ‘ou ‘pornostar’ da literatura. Fiquei sem palavras quando anunciou que o sonho que reservava para aquele dia era ter a coragem de se tornar uma Hilda Hilst da blogosfera da língua, portuguesa, convenhamos. De origem brasileira, a senhora era uma safada mesmo, mas já está fisicamente morta. E ela com a ajuda da mãe cá estaria para seguir aquele trilho da libertinagem.
A nova Lori Lamby das Avenidas Novas. A internet estreita mesmo os mundos! como é que a filha de um projecto de alcoviteira conhecia uma escritora polémica e morta. É nestas alturas que tenho a certeza que andamos a vida toda a subestimar os outros.
Podia abrir até ao umbigo os botões da blusa de seda, fazer aquele beicinho cretino de menina mimada que vai começar a soluçar ou a ganir, mas seria tão ordinária como todas as outras que considera ordinárias. Pensei, mas não lhe disse há que manter a diplomacia. Além disso revela alguma maturidade.

Bastante hesitante, Felícia, ainda não sabe que caminho escolher, mas a pedido de alguns familiares sem qualquer parentesco com as elites, que lhe exigem que os sustente, vê-se de repente obrigada a tornar-se uma Barbara Cartland, picante, sem papelotes, nem caniches ou laçarotes.
Num cruzamento vadio há uma seta feita de látex preto e branco que lhe indica os calabouços da literatura erótica, e outra escrita a cor de rosa fluorescente que a avisa : porta-te bem!


Ora se, se portar bem não pode subir a saia acima do joelho. Fica assim a salivar sobre isso porque a inconstância provinciana a que está agregada deixa-a feita estátua, como aquele jogo idiota que brincava em criança.
Ainda hirta e imóvel pensa naquela possibilidade muito defendida pelos escritores de alto gabarito de escrever na 3.ª pessoa do singular.
Digo-lhe que faça isso “segura e natural”. Que uma amiga já me havia aconselhado a fazê-lo, atormentando-me, que “só assim filhinha é que te tornarás uma verdadeira escritora”. Verdadeira já me tornei, agora escritora nestes dias de compadrio, é um osso duro de roer.
{Agora que me lembras disso Felícia, deixa-me interromper a tua história por um bocadinho, para, comovida, agradecer a quem teve a generosidade de partilhar comigo a dica. Que só serei verdadeiramente escritora quando me debruçar sobre ela e elas ou ele e eles.}

Podia garantir-vos que a partir de hoje as piadas difundidas daqui da rua diriam apenas respeito a 3ªs pessoas do singular. Lamento desiludir-vos mas não poderei fazê-lo. Felícia chamou-me à razão dizendo que se Christiane F., Sylvia Plath escreviam na 1ª pessoa, nós também poderemos fazer o que nos der na real gana.
Agradeço-te querida Felícia por me teres chamado à razão. Apesar de me chamar Jessica Coelho e pertencer à Associação de Coelheiras da Baixa da Banheira, sou bastante céptica em relação a carneiradas. Prefiro como Scarlett O’ Hara comer rabanetes crus com a cara cheia de lama. É uma fantasia sexual como qualquer outra. Pede se fazes favor à tua mãe que me pese meio quilo para o pequeno almoço.
A carreira jornalística de Felícia vai bem melhor do que a minha. Jurou-me a pés juntos que se tornou amiga íntima da atrevida Cidália e do considerado António Sousa Homem, ambos colunistas da NS, revista que sai ao sábado com o Diário de Notícias.
Ignorou-me cantarolando quando lhe disse que ambos eram pseudónimos de outras pessoas, e está convencida de que a irão ajudar muito. Seja como sopeira das redacções (a mãe fornece-lhe a hortaliça) ‘pop ‘ou ‘pornostar’ da literatura.
Ao longo deste último ano quero agradecer a todas as pessoas que tentaram ajudar-me e não conseguiram. É incrível como sete anos depois de me licenciar em comunicação social, a minha profissão está em vias de extinção.
Tanto eu como Felícia gostávamos muito de poder escrever. Sinceramente, acham que é pedir muito?
Aguardo ansiosamente pelas vossas cartinhas.
Bem hajam Jess.