sexta-feira, junho 22, 2007

Moçambique

“As casas sem janelas de Marraquene. Cortinados esvoaçantes. Os bailes de antigamente. Duas pessoas sentadas no banco da frente de mãos dadas. Mão preta. Mão branca. Entrelaçadas. O famoso pintor negro, antigo apanha bolas no Clube de Lourenço Marques e a menina colonial que conserva alguns vícios da adolescência, bâton e cigarros. Ambos têm 67 anos.”

No meio da desarrumação mental com projecção nos papeis que me fartei de rasgar pela tarde fora...encontro o meu caderninho branco de Moçambique. Demasiado branco para a vida escura que emana daquela terra barrenta de cheiros intensos. Tenho coragem de voltar. Já não me custa tanto. Passaram quase quatro anos. Tenho saudades da Zé.
Lá nas poucas páginas escrevinhadas conto em letra miudinha.

“Foi a Zé que me trouxe ao mundo dos 50 paus, dos dentes partidos ou inexistentes, dos murais coloridos que celebram a independência do país. Mas também das noites infindáveis do antigamente, do vinho importado de África do Sul, das ruas arborizadas, das casas saqueadas, dos vidros partidos, do miradouro lindíssimo onde a pequena de dezassete anos da família X foi esfaqueada e lhe arrancaram um bocado de bochecha por causa de um telemóvel”

Custou-me muito engolir que o mundinho Karen Blixen existia apenas na minha cabeça e na de Sydney Pollack. Que se lixe!
Nem todos podemos ter África aos pés, o que mais me chateia é que nem os próprios africanos a têm nas mãos.

“Tomei o pequeno almoço no Polana. Conheci gente simpática por causa de um lagarto azul petróleo (cor de penas de pavão) chamado Gala Gala. Assaltou-me o espírito de Isabel F. de Mangualde, aqui por causa do marido mas já instalada na caridade cristã de ajudar os milhares de pessoas carenciadas que vieram para Maputo à procura de melhores condições de vida e não as encontraram. Acho que me despeço do que faço e arranjo outra coisa para fazer só por causa do estilozinho de vida”

“BAZARUTO: Já no paraíso africano dos golfinhos, uma linha rosada de flamingos no crepúsculo a bater na linha do horizonte. Parto para um bailarico no outro lado da ilha onde em vez de bungalows de luxo há uma autêntica aldeia de pescadores. Vou pela areia guiada por dois meninos que vivem ali, Respeito Paulino e Rafael. Amizades fáceis e efémeras.
A lua brilha, gorda, em cima dos pântanos onde dormem os flamingos. Os pescadores carregam a faina cheios de prata. Pedem cigarros. Rafael diz que aqui na ilha todos têm respeito e ninguém rouba ninguém.”

Lembro-me das danças e cantares da alegria. De ter invejado as capulanas, os sorrisos inocentes e a vida simples da ilha. Hoje acho que não tinha legitimidade nenhuma para o fazer. Uma provinciana em África deslumbrada com os indígenas, de facto não há pachorra, nem tem actualidade. É só saudosismo. Abandonada a vizinha ilha de Santa Carolina mantém um charme decadente irresistível. No hotel solitário virado ao Índico um velho piano faz questão de lembrar saudoso as festas de outrora.

“Os bailes de gala madrugada fora em casa do M. na noite dos óscares. Todos vestidos a rigor plumas, cetim e púrpura. Imagino vestidos de cortinado e misturo tudo. Imagino uma espécie de Scarlett O’ Hara africana. Erro no espírito da coisa, daquilo que se vive aqui. Ou talvez não. Intuo a mesma subserviência, o mesmo ódio. Esponja deixo-me iluminar pelo sorrisos. Os vários sorrisos das pessoas quando nos rimos para elas. Aberto franco de marfim ou desdentado.”
Não sobrevivi a África, digamos que ressuscitei mais esclarecida. Não quero vomitar uma série de clichés. Demorei quase 4 anos a escrevê-la e mesmo assim não tenho dimensão para ela. Agora percebo África deixou-me sem pio. África é difícil.

quarta-feira, junho 06, 2007

Baldio


Permanece o baldio. Terreno cheio de ervas daninhas. Ouve-se a voz de Enya como brisa do vento. É um tempo que a irrita esse da Enya. Traz muita memória da adolescência, muito os 15 anos, aquele sofrimento(zinho) que nem sequer se sabe determinar a origem. Não gosta da Enya, a Enya é a banda sonora de um trabalho de filosofia no liceu. Todos adular o professor meliante que arrasta a asa para cima das rapariguinhas. Oh! Se conhecessem na altura This Mortal Coil davam com ele em doido!
Há uma rudeza no silêncio enyante/ entediante do baldio. Não sabe o que lá há-de plantar. Cebolas talvez, para que os olhos chovam aquilo que ainda não choveram. Com as cebolas os olhos ardem, não choram.
Há uma invalidez no raciocínio não consegue lembrar-se de quase nada. Ontem havia o rapaz do taxi que dizia que tinha acabado de descascar uma laranja. A laranja era doce da baía. Baía? Sim Baía do Algarve. Ah! Estou a ver...
Mas na realidade não está, só sente e inspira o cheiro peganhento da laranja.
Veio com ele para casa no seu taxi a tresandar a laranja descascada, doce da baía algarvia. Vê que duas das letras gigantes do edifício do Diário de Notícias estão fundidas (há quanto tempo estarão?) mas não fixou quais seriam. Imaginou que talvez tenha sido razão suficiente para o Pedro Mexia se ir embora. (Na altura a observação mental foi mais engraçada.) Está tudo tão claro no cérebro. O rapaz do taxi acha-se bonito, e interrompe as observações fugidias. Estava fraco o bairro? Não, não estava. Monocórdica. As luzes do DN estão fundidas, o DN está moribundo. Já ninguém quer escrever no DN. Quase todos fugiram para as páginas dos pasquins vizinhos. O Baldio incha e contamina Lisboa. Crescem urtigas em vez de fertilidade. É atropelada por pessoas que gostam demasiado de si próprias, porque no fundo não gostam assim tanto e têm medo que os outros também não gostem e não as venerem. As pessoas querem ser aduladas como o professor de filosofia do liceu.

“Aceita-se pessoa que me afague o ego. Que diga que sou imprescindível no pardieiro em que me movo.”

Se há coisa que percebeu no tempo em que pastava buganvílias violeta (e que saborosas eram) no rebanho do Carneiro é que ninguém é insubstituível! O baldio incha-lhe dentro da cabeça. Suspira fundo, o mundo pertence aos escroques e aos manhosos. Vê a vida com outros olhos. Já não é ceguinha de todo.