Moçambique
“As casas sem janelas de Marraquene. Cortinados esvoaçantes. Os bailes de antigamente. Duas pessoas sentadas no banco da frente de mãos dadas. Mão preta. Mão branca. Entrelaçadas. O famoso pintor negro, antigo apanha bolas no Clube de Lourenço Marques e a menina colonial que conserva alguns vícios da adolescência, bâton e cigarros. Ambos têm 67 anos.”
No meio da desarrumação mental com projecção nos papeis que me fartei de rasgar pela tarde fora...encontro o meu caderninho branco de Moçambique. Demasiado branco para a vida escura que emana daquela terra barrenta de cheiros intensos. Tenho coragem de voltar. Já não me custa tanto. Passaram quase quatro anos. Tenho saudades da Zé.
Lá nas poucas páginas escrevinhadas conto em letra miudinha.
“Foi a Zé que me trouxe ao mundo dos 50 paus, dos dentes partidos ou inexistentes, dos murais coloridos que celebram a independência do país. Mas também das noites infindáveis do antigamente, do vinho importado de África do Sul, das ruas arborizadas, das casas saqueadas, dos vidros partidos, do miradouro lindíssimo onde a pequena de dezassete anos da família X foi esfaqueada e lhe arrancaram um bocado de bochecha por causa de um telemóvel”
Custou-me muito engolir que o mundinho Karen Blixen existia apenas na minha cabeça e na de Sydney Pollack. Que se lixe!
Nem todos podemos ter África aos pés, o que mais me chateia é que nem os próprios africanos a têm nas mãos.
“Tomei o pequeno almoço no Polana. Conheci gente simpática por causa de um lagarto azul petróleo (cor de penas de pavão) chamado Gala Gala. Assaltou-me o espírito de Isabel F. de Mangualde, aqui por causa do marido mas já instalada na caridade cristã de ajudar os milhares de pessoas carenciadas que vieram para Maputo à procura de melhores condições de vida e não as encontraram. Acho que me despeço do que faço e arranjo outra coisa para fazer só por causa do estilozinho de vida”
“BAZARUTO: Já no paraíso africano dos golfinhos, uma linha rosada de flamingos no crepúsculo a bater na linha do horizonte. Parto para um bailarico no outro lado da ilha onde em vez de bungalows de luxo há uma autêntica aldeia de pescadores. Vou pela areia guiada por dois meninos que vivem ali, Respeito Paulino e Rafael. Amizades fáceis e efémeras.
A lua brilha, gorda, em cima dos pântanos onde dormem os flamingos. Os pescadores carregam a faina cheios de prata. Pedem cigarros. Rafael diz que aqui na ilha todos têm respeito e ninguém rouba ninguém.”
Lembro-me das danças e cantares da alegria. De ter invejado as capulanas, os sorrisos inocentes e a vida simples da ilha. Hoje acho que não tinha legitimidade nenhuma para o fazer. Uma provinciana em África deslumbrada com os indígenas, de facto não há pachorra, nem tem actualidade. É só saudosismo. Abandonada a vizinha ilha de Santa Carolina mantém um charme decadente irresistível. No hotel solitário virado ao Índico um velho piano faz questão de lembrar saudoso as festas de outrora.
“Os bailes de gala madrugada fora em casa do M. na noite dos óscares. Todos vestidos a rigor plumas, cetim e púrpura. Imagino vestidos de cortinado e misturo tudo. Imagino uma espécie de Scarlett O’ Hara africana. Erro no espírito da coisa, daquilo que se vive aqui. Ou talvez não. Intuo a mesma subserviência, o mesmo ódio. Esponja deixo-me iluminar pelo sorrisos. Os vários sorrisos das pessoas quando nos rimos para elas. Aberto franco de marfim ou desdentado.”
No meio da desarrumação mental com projecção nos papeis que me fartei de rasgar pela tarde fora...encontro o meu caderninho branco de Moçambique. Demasiado branco para a vida escura que emana daquela terra barrenta de cheiros intensos. Tenho coragem de voltar. Já não me custa tanto. Passaram quase quatro anos. Tenho saudades da Zé.
Lá nas poucas páginas escrevinhadas conto em letra miudinha.
“Foi a Zé que me trouxe ao mundo dos 50 paus, dos dentes partidos ou inexistentes, dos murais coloridos que celebram a independência do país. Mas também das noites infindáveis do antigamente, do vinho importado de África do Sul, das ruas arborizadas, das casas saqueadas, dos vidros partidos, do miradouro lindíssimo onde a pequena de dezassete anos da família X foi esfaqueada e lhe arrancaram um bocado de bochecha por causa de um telemóvel”
Custou-me muito engolir que o mundinho Karen Blixen existia apenas na minha cabeça e na de Sydney Pollack. Que se lixe!
Nem todos podemos ter África aos pés, o que mais me chateia é que nem os próprios africanos a têm nas mãos.
“Tomei o pequeno almoço no Polana. Conheci gente simpática por causa de um lagarto azul petróleo (cor de penas de pavão) chamado Gala Gala. Assaltou-me o espírito de Isabel F. de Mangualde, aqui por causa do marido mas já instalada na caridade cristã de ajudar os milhares de pessoas carenciadas que vieram para Maputo à procura de melhores condições de vida e não as encontraram. Acho que me despeço do que faço e arranjo outra coisa para fazer só por causa do estilozinho de vida”
“BAZARUTO: Já no paraíso africano dos golfinhos, uma linha rosada de flamingos no crepúsculo a bater na linha do horizonte. Parto para um bailarico no outro lado da ilha onde em vez de bungalows de luxo há uma autêntica aldeia de pescadores. Vou pela areia guiada por dois meninos que vivem ali, Respeito Paulino e Rafael. Amizades fáceis e efémeras.
A lua brilha, gorda, em cima dos pântanos onde dormem os flamingos. Os pescadores carregam a faina cheios de prata. Pedem cigarros. Rafael diz que aqui na ilha todos têm respeito e ninguém rouba ninguém.”
Lembro-me das danças e cantares da alegria. De ter invejado as capulanas, os sorrisos inocentes e a vida simples da ilha. Hoje acho que não tinha legitimidade nenhuma para o fazer. Uma provinciana em África deslumbrada com os indígenas, de facto não há pachorra, nem tem actualidade. É só saudosismo. Abandonada a vizinha ilha de Santa Carolina mantém um charme decadente irresistível. No hotel solitário virado ao Índico um velho piano faz questão de lembrar saudoso as festas de outrora.
“Os bailes de gala madrugada fora em casa do M. na noite dos óscares. Todos vestidos a rigor plumas, cetim e púrpura. Imagino vestidos de cortinado e misturo tudo. Imagino uma espécie de Scarlett O’ Hara africana. Erro no espírito da coisa, daquilo que se vive aqui. Ou talvez não. Intuo a mesma subserviência, o mesmo ódio. Esponja deixo-me iluminar pelo sorrisos. Os vários sorrisos das pessoas quando nos rimos para elas. Aberto franco de marfim ou desdentado.”
Não sobrevivi a África, digamos que ressuscitei mais esclarecida. Não quero vomitar uma série de clichés. Demorei quase 4 anos a escrevê-la e mesmo assim não tenho dimensão para ela. Agora percebo África deixou-me sem pio. África é difícil.