O quintal.
A avó ainda roliça, antes de ficar magrinha.
A chamar:
Hortense, Ó Hortense!
O prato de arroz doce nas mãos dela, com pequenos desenhos feitos de canela.
Hortense era a vizinha de cabelo cor de prata e um carrapito encavalitado na nuca. Também a receptora do arroz doce salpicado de canela. Gostava muito do sorriso dela.
Os jarros no canteiro a abanarem-se ao vento. O zum, zum e os cabelos brancos da avó voarem num rodopio.
O cão que diziam ter vinte anos da Quinta do vale, aquele todo malhado que aparecia nos meus sonhos. Pesadelos de criança.
Gatos vadios malhados em cima do muro. No tempo que eu era mais baixa que o muro e que os perus ficavam presos a destilar aguardente na casa do forno.
Em cima da nogueira, que era confundida com uma nave espacial, conseguia ver o verde do campo, os ciprestes compridos do cemitério e a serra azul ao fundo. A minha serra, (aquela) não tem cor de terra, nem de vinho, tem cor de mar, ou é da cor da mistura do sal e da pimenta.
Lá em baixo o galo Zacarias enxotava o milho que eu que tinha dado às galinhas (a achar que era muito prestável por ajudar o avô).
O galo Zacarias era anão, lustroso e com penas de poentes vários. Não as minhas penas. Não tinha idade para grandes penas.
O avô era dono do quintal. Nele tinha casebres que, por sua vez, albergavam baús cheios “de tesouros/porcarias”, revistas antigas (Flamas e Modas & Bordados) e cadernos de capa dura de contas, estes últimos que corrompi com riscos, desenhos, brincadeiras e com ilustrações inspiradas nas histórias que ele contava. E onde escrevi uma, a uma as árvores de fruto amigas do avô.
Até certa altura fomos os melhores amigos, mas assim que fiquei mais alta que o muro do quintal deixou de me ligar importância.
Ficam as histórias.
A das andorinhas que faziam os ninhos nos beirais do telhado. A da perdigueira Pérola, sua companheira de caça, que esperou um dia inteiro por ele para lhe morrer aos pés. A do menino da Mata e do seu cão Piloto. Entre outras histórias de pessoas ou velhas, ou mortas. Eu gostava de o ouvir, e se fizer um esforço ainda consigo ouvir a sua voz plácida a explicar-me coisas da natureza, ou a fazer dissertações sobre a força hercúlea da Padeira de Aljubarrota.
Gosto dos mortos. Lembro-me deles com alegria. E por mais incoerente que pareça gosto de pensar que estão no céu a velar pela vida que escolhi viver, mesmo que por qualquer razão os tenha desapontado. São eles que me fazem companhia quando a casa está vazia. Agarro-me a eles e deixo que me embalem como faziam quando era pequenina. Às vezes sinto-me tão minúscula que volto ver o muro do quintal gigante e o meu desejo maior é conseguir empoleirar-me lá em cima, para ver a vida do outro lado. Ainda hoje é difícil vê-la do outro lado. Essa história, infelizmente, ainda ninguém ma contou.
Faz hoje exactamente um ano em que fiz a primeira incursão nas lides trágico marítimas. De pôr o pensamento ao vento, via blog.
Se fui buscar o quintal, o campo, as galinhas, a avó e o avô, é porque é neste ambiente de infinita generosidade bucólica que vou retemperar as energias quando chove dentro da minha cabecinha de ervilha. Hoje a enxurrada entrou lá dentro. Temo inclusivamente ter bocadinhos de cérebro a boiar desconjuntados, quem me conhece, dirá com certeza: “Mas isso não é novidade para ninguém”.
Não é mesmo!