domingo, novembro 26, 2006

Coisas pequenas



A intenção hoje é ser breve, tão breve que aposto que ninguém irá dar por mim. Uma chuvosa madrugada de sábado para domingo carrega, às costas, comigo até aqui. A esta hora a “chuvosa madrugada” não pode com certeza com “uma gata pelo rabo”. Pesa-lhe a coluna. A mim pesa-me a cabeça e temo que o mar me cause neurastenia como causava à minha avó. (Só que ao contrário da dita abuelita, sou uma filha absoluta do mar. Foi sempre ali que fui buscar cura para grandes males (asneiras alcoólicas) da noite anterior, amores não correspondidos, entre outra catrefada de coisas que não vêm a propósito.)
Mas hoje quando o vi (ao mar) castanho, cor de burro quando foge, revolto a desmanchar-se em espuma debaixo de um sol gritante de Outono. Ele, sem que eu o pudesse impedir, contagiou-me da sua perturbadora fúria e densidade e dei contaminada um mergulho no escuro.
(Tão previsível Jess, tens que levar umas chibatadas psicológicas para te meteres no lugar! Agora vens para aqui, de lado para o outro, de um lado para o outro, lavar roupa cheia de borbotos!?).

O escuro é esclarecedor e medonho.

Síntese: O mar a galgar o Frei Rodrigo no Cabo Carvoeiro. Rochas carcomidas e espuma, gaivotas ao sabor do vento. A Berlenga (ilha de sonho e de Saturno)cara de baleia visível e gigante em fila com os irmãos ilhéus a olhar por ela .

Tentei não ultrapassar X caracteres, porque no outro dia houve uma alma caridosa que me autorizou a escrever textos mais pequenos, e não os textos testamentais e dementes que ultimamente fazem as delícias do meu vómito interno. Se calhar foi uma maneira delicada de dizer “não consigo ir além das 15 linhas e acho que o género epistola deixou de ser moda, logo a seguir a São Paulo.”

terça-feira, novembro 21, 2006

Manifesto, manifesto-me


Tinha deixado. Mas como é uma relação prepotente aquela que tenho com a escrita, regresso até ela, de orelha caída, como um cãozinho sarnento que ninguém quer para se enroscar.
Os que podem ouvir, ouvem longinquamente "Butterfly Caught" dos meus rapazinhos de Bristol, enquanto, eu em forma de cão, vou ao seu encontro com ar de quem está a lembrar-se da parábola do filho pródigo. Não sinto da parte do teclado a emotividade que os pais do primeiro pródigo terão sentido, mas nem eu, nem ele somos personagens bíblicas. O teclado então nem teve direito a baptismo ou outro qualquer sacramento.
Não sei se esta coisa de andar a pregar aos sete ventos que já não sou católica não acabará por prejudicar-me?
Serei, ainda assim, uma beata dependente da cultura cristã?
Se Deus existir sabe bem que, do mal o menos, lá vou mantendo umas conversas com Ele, que o venero ao ponto de referir-me a Ele com letra maiúscula, mas por outro lado acho esta relação altamente desigual. Como se fosse uma escrava de preceitos que nem sequer foi Ele que instituiu. Irrita um bocado. É nessa consciência que estou de regresso para poder desiludir-me à vontade. Não porque queira mas porque cada vez me sinto mais um cão no meio da massa pensante, informadora, deformadora e manipuladora, a quem me apetece rosnar, ladrar e até morder se me der a veneta.
Vejo perfeitamente que este não será o momento oportuno para construir uma trama. A não ser que fosse de crítica social porque iria com certeza retratar uns debilóides com grandes ares de Srs. doutores para quem a vida, é mais um carro, umas massas valentes ou um velho para limpar o sebo. Vejo isto enquanto um cão verte para cima de um canteiro de agapantos, ironicamente, a flor do amor.
Devia ter fugido de casa como o rapazinho de “Kafka à Beira Mar ”, mas nunca tive coragem. Provavelmente não fazia diferença nenhuma.
Não tão inocente e espontânea como antes e mais naif e crédula que amanhã. Não há fuga possível ao sofrimento. Se não é uma coisa é outra.
Obviamente que há pessoas felizes porque têm dinheiro, estatuto e poder sobre os outros. Ou porque têm filhos e unhas postiças, e gostam de falar da desgraça alheia e são muito devotas ao senhor. Pronto disse. - Vão me prender? - E aceitam subornos e fazem desfalques e vão à missa ao domingo.
Parece que há uma condenação a decorrer e por mais que caminhe (com ou sem coordenação de movimentos) não há maneira de tornear o veredicto.
Estou viva, mas passa depressa. Posso ser passada a ferro amanhã de manhã ao atravessar a estrada. Ou não, e, mesmo assim a vida passar depressa demais.
Se teoricamente sinto urgência em viver, na prática vejo nuvens negras a dissolverem-se em copos gigantes de água gelada. Parece um prenúncio, vazio mas prenúncio.
Deve ser também por causa disso que flutuo de novo mas, desta feita, sem sonhar com mundinhos cor de rosa. Não os quereria.
( Serei como a raposa?
Estão verdes não prestam, disse ela sobre umas uvas que não conseguiu alcançar.)

Há sempre essa possibilidade. De no fundo ser uma dissimulada que não acredita em nada desta treta.

Apanho as canas!

Mesmo que quisesse, não dá, não consigo concordar com bocas faladoras e confusas. Tanto me aconselham a não ter demasiadas expectativas, como me dizem que se for negativa chamo maus espíritos. Tudo em apenas uma frase com uma vírgula no meio. Devo por causa dela ficar no meio termo?
Uma pessoa que nem sequer me conhece e dá um conselho deste calibre,
É porque mereço?
Ou será porque deixei?

Devia ter dito: Olha kiki, não tenho jeito para fingir que sou feliz a vapor. A vida como a dos outros não se perspectiva. Não o farei só porque os outros fazem. Quando o fizer será de explosão e de intensidade. Não porque tu ou o outro quiseram. E digo como a Adília Lopes: “Não sei se vou casar, se vou ter filhos. (...) As pessoas f... e não são felizes. As pessoas programam gravidezes e depois os filhos não são louros, segundo o figurino da moda”.
É que não são mesmo.

Devo confessar que não sei se estou sofrer de SPM ou se será um gene do sentido trágico da vida de que falava Unamuno....

Não vale a pena o esforço se sou macaquinha do circo faço outras macaquices e não essas que vêm no catálogo. Olho para dentro e no espelho interno não é a minha cara, corpo ou alma aquilo que vejo.
Como se a imagem que carrego fosse a de um fantoche do cornudo para distrair a humanidade.
Lamento-me de não ter o poder de distrair a humanidade. Por mais que escrevinhe muito cheias de boas intenções como as beatas. Porque no fundo sou a beata que renegou o rebanho. Tal e qual a Zita Seabra renegou o partido comunista.

Este remoer de coisas dá-me picadas no estômago. Parece que cá dentro tenho um balão a explodir/implodir cheio de gás lacrimogéneo para apagar a raiva que se apodera de mim e me transforma no Incrível Hulk.

Consigo vê-lo que nem um doido a gesticular no vazio para depois derreter-se como aquela vaca da Cow Parade que não aguentou as temperaturas infernais numa cidade qualquer da Europa Central

Não celebro, nem lamento este regresso “de gatas” à escrita. Haja liberdade de expressão. Mas este remorso filho do Cristianismo (vejam como sou obediente e uso tão bem as maiúsculas) é pior do que uma carraça.
Não usarei véu nem grinalda, nem venero toda contente as vossas convenções sociais. Fico por aqui muito mazinha a dizer mal da vida. Afinal sou um cão com pulgas que por mais voltas que dê, não encontra a casa da partida.

sexta-feira, novembro 17, 2006

Direito de resposta



A vida não está fácil. Depois de ter recebido uma crítica construtiva por não alimentar convenientemente este ciber Tamagochi senti que talvez seja uma mãe desnaturada do animal em questão. (Esta constatação pode ajudar-me a ver que ainda não chegou a altura de ter um cão, um filho ou marido, só de plantar a árvore.)

Enquanto o blog foi um brinquedo novo dei-lhe doses quase diárias de atenção e ternura, usei-o contra o ócio e servi-me dele para não estar completamente desempregada. Hoje estando o bicho quase a completar um ano, não estou certa se terei feito bem em criá-lo ou se devia ter continuado a escrever textos em guardanapos rasgados e em bocado de toalhas de papel para pôr na gaveta. Continuaria debaixo da mesa a brincar aos escritores como algumas crianças que teimam em não crescer.

Faço-lhe jus que durante os primeiros tempos de indigência, ele serviu-me bem de armadura. À pergunta que, entretanto, se tornou “tortura” se já tinha arranjado trabalho, respondia displicentemente: “Não, mas tenho um blog!”
Como se o facto de o ter me devolvesse a minha independência económica. Durante uns meses achei que ter um blog poderia suprimir todas as outras faltas e frustrações, porque sou louca, inconsequente e talvez nunca tenha passado fome na vida.
Se espiritualmente sinto esse consolo, em termos práticos, tive que render-me às exigências da economia de mercado e ir atrás do “pão para a boca”.
Quando surgiram os biscates agarrei-os a todos com unhas e dentes. Não são alimento da alma, mas proporcionam-me pequenos luxos como comprar livros, discos e ir tomar o pequeno almoço a sítios bonitos com vista esplendorosa sobre Lisboa. Como não tenho amor ao vil metal, estou sempre nas lonas sem deixar nem de viver bem, ou comer ainda melhor!
Estas ocupações apesar de não serem menores sugam-me muitas vezes a energia de que dispunha para escrever. Ou porque sou uma prostituta jornalística escrevo (a quem me pagar uns míseros tostões), ou uma espécie de motorista de luxo e levo com trânsito a rodos nos labirínticos bairros de Lx. Ultimamente sou ainda aluna, de novo, atrás de uma carteira de escola a tirar um curso de produção. Por causa desta amálgama às vezes não tenho os 10% de inspiração e como sou intencionalmente literária, não publico a primeira merda que me vier à cabeça. De qualquer forma estou grata a todos os que têm pachorra de passar por aqui, porque é esta interacção que move o criador. Criar para ser visto. Amado ou odiado. Prometo, apesar , da adversidade não deixar o desgraçado ficar com cara de quem está morrer à fome. Mas por favor vejam-no com reservas alimentares como os camelos do deserto, que eu ando em plena travessia.