sexta-feira, janeiro 05, 2007

Tinta d' água e nostalgia

Talvez não volte. Rumo de madrugada ao Deserto. Há sempre aquela possibilidade de ser trocada por camelos, apesar de não saber se os mercadores ganhavam com a troca. Havia de lhes dar muito trabalho, quem sabe tanto como os camelos dariam ao meu rapaz, se ele caísse na tentação de me trocar por meia dúzia.
Sempre que tenho que trabalhar numa coisa chata, apetece-me escrever. Agora que me vou por uns dias apetece-me escrever.
A Fernandinha avisou-me que tivesse cuidado com os beduínos, eles que tenham cuidado comigo, que não sou nada boa de assoar. Nicholas Shakespeare na Biografia de Bruce Chatwin conta, salvo erro, que o autor de “Patagónia” e “Canto Nómada” dizia ter sido violado por selvagens. Isso queria ele!
É
uma fantasia podre, mas é uma fantasia como outra qualquer. E isto de andar a chamar selvagens aos senhores também tem muito que se lhe diga.
Gosto deles e das suas caras desdentadas. Admiro as suas infindáveis caminhadas pelas colinas, gosto da pureza dos homens que passeiam aos pares de mãos entrelaçadas (Se fosse cá chamavam-lhe nomes cabeludos e diziam logo que professavam a cultura do homossexualismo). Ali não, ali tudo parece puro.

Fecho os olhos lembro-me da outra viagem a Marrocos que fiz no carro sem travões da avó da rapariga que me levou às costas ao Vietname. Sinto na boca o sabor da mioleira, que comi no mercado de Marraqueche. Até hoje estou para saber de que seria, mas de sabor, soube-me tão bem.
Contorno os olhos cinzentos do homem do hotel, empoleiro-me no seu nariz pontiagudo e vagueio na sua cara queimada pela vida, cheia de riscas, desenhos e rugas.
Apanho laranjas das laranjeiras da rua mal iluminada do Hotel.
Converso com o rapaz que me perguntou com interesse pela Ler Devagar.
Cheiro cada erva, cominhos, açafrão, caril. Bebo as suas cores em pirâmide. Danço valsas e danças do ventre com os frangos do mercado desnudados até ao pescoço.
Caio numa poça de azul turquesa e entro sem pedir nas portas entre abertas das casas caiadas a tinta d’água azulada.
Em Ouarzazate trepo pela Montanha. Lá dentro do tutano, casas barrentas ‘ton sur ton’ com a terra que as rodeia. Brilhante a natureza. Sem merdas.
Parto cheia de saudades enfio o passaporte num bolso. No outro um punhado de nostalgia.
Troco-me no deserto por camelos. Sou eu que consinto.