segunda-feira, maio 08, 2006

Serei insaciável?

Não escrevo de escrever há muito tempo, por isso estou gulosa e atafulhada de ímpetos até à medula óssea.
Devia estar feliz, sê-lo profundamente e ainda assim pareço um rabo de raposa (erva daninha) em pleno faval verdejante a infectar a natureza de demónios, sem dó nem piedade.
Esponjo-me em tudo, seja em terra firme, mar ou nas letras que formam as palavras, nas palavras que formam as frases e nas frases que enchem os livros. De dentro das páginas amareladas desses livros saem e assaltam-me os temperamentais Heathcliff e Catherine Linton e os respectivos rebentos. Tão autênticos, selvagens, arrebatados, demoníacos e instintivos. Tão poderosos, conseguirão eles fazer de mim seu fantoche?
Será também tuberculose a causa de tão negro carácter?
Acredito que, de uma maneira ou de outra, estes espíritos vagueiam à minha volta como se de leves folhas se tratassem, num rodopio incessante cujo enjoo não chega a ser a náusea do Sartre, mas que me verte de existencialismo pegajoso para que sinta que nenhuma corrente literária me enche as medidas e todas elas à sua maneira têm contribuído em pequenas coisas para que me sinta este ser camaleónico e imprevisível incapaz de controlar os seus próprios actos.
Reconheço que a rocha ou o ombro em que me encosto me dá em certas ocasiões uma tranquilidade infinita, mas passada a hora do recreio eu quero continuar a brincar e a espernear sem (crer/querer) ver que esse rochedo tem hora marcada para figurar num outro palco, numa outra vida com outros actores, outras deixas e cantorias.
Só para não ser estúpida deram-me o Werther para as mãos, cavalgo em cima dele desaustinada. Os nobres sentimentos do romantismo provocam-me uma indigestão, com cenas dos próximos capítulos. Diz Goethe através do pobre Werther:

“Não há nada que me desgoste mais do que ver homens atormentarem-se reciprocamente, e em especial se, sendo moços, na flor da vida, quando as suas almas mais facilmente se poderiam abrir a todos os sentimentos do prazer, perdem por estúpidas susceptibilidades os poucos dias bons de que podem gozar, compreendendo somente quanto é louco esse desperdício quando já não é tempo de reparar o mal”.


Não poderia vir mais a propósito! Que mania esta a de Deus ralhar comigo através dos livros. Opto por ser ignorante e não reduzir este acontecimento a uma simples coincidência. As personagens intrometem-se constantemente na vida que levo. Dão-me moral, tiram-ma, tornam-me amoral e misturo tudo com literatura. Mal e porcamente.
No meio deste vómito indecoroso, assumo finalmente que tenho recorrido à fuga e à evasão para sobreviver às intempéries. Não estarei sempre a repetir a mesmíssima coisa?
Ardo por causa do Goethe! Ah! como ele me ensina arder numa fogueira incandescente onde me sinto sujeita à minha violência e ao meu torpor.
Oiço gargalhadas piedosas, mas sei que caminho a olhos vistos para deixar de ter graça.
Será que ainda estou a tempo de me formatar?
Se pudesse, juro que formatava, neste caso específico, formatação quererá dizer:
- Domesticar os ímpetos sejam emocionais, sexuais ou gastronómicos,
- Ignorar os ataques de mimo que me transformam no Incrível Hulk,
- Engolir em seco a susceptibilidade e pô-la ao largo,
- Deixar de ser uma criança alienada do mundo real,
E sobretudo,
- Estar atenta, Atenta e atenta!

Só que formatar na prática, é muito difícil, requer um certo estoicismo, qualidade que ainda não vi à venda em loja alguma.
É indiscutível, no entanto, que os rebolanços mentais já não substituem as evidências em carne e osso, estas por sua vez sacodem todos príncipes com Orelhas de Burro, que teimam pernoitar dentro da minha cabeça.
Ora estando eu, como diz Werther, na flor “madura” da vida, escancaro a alma para levar com o sol na tromba (Werther jamais diria tromba). E quando estiver triste, farei um esforço para lembrar-me, que apesar de muitos, são poucos os dias bons que poderei gozar.
Estarei a tempo de reparar o mal?
Ai que o romantismo é uma lapa nojenta, tomara já livrar-me dele!
Senão, vendo a alma ao diabo e talvez o cornudo me arranje trabalho numa chafarica! Com direito a cadeira e a secretária (bastam-me as de madeira).